Continuando...infelizmente

Por 1
19/4/2012

Artigo escrito por Francisco Ferro,

Editor de Tecnologia & Defesa

 

Recentemente escrevemos um editorial a respeito de tristes acontecimentos em uma unidade do Exército Brasileiro, cujos desdobramentos ou consequências, por sinal, ainda não são conhecidos, pelo menos oficialmente.

Na oportunidade, inclusive, e sem termos nenhuma pretensão a sermos os “donos da verdade”, questionamos a respeito de hábitos e práticas que vêm se inoculando, e de modo altamente pernicioso (nisso acreditamos piamente) em nosso meio social. Agora, nos vemos diante de um novo fato – que na verdade não se constitui em nenhuma novidade visto que já ocorreu antes – também, em nossa opinião, em mais um sério sinal de alerta e que não pode cair no conveniente esquecimento dentro de mais algum tempo.

No final da última semana, o Brasil (e o mundo) assistiram a imagens absurdas mostrando o confronto entre bombeiros e policiais militares no Rio de Janeiro quando da invasão, pela tropa de elite da Polícia Militar daquele Estado, o BOPE, do quartel-central do Corpo de Bombeiros Militar de lá, para desalojar e prender centenas de bombeiros amotinados, muitos acompanhados de familiares, que protestavam por melhores salários e condições de trabalho.

Uma situação de difícil análise, muito embora o governador Sérgio Cabral tenha anunciado influências políticas no movimento. A operação contrapôs profissionais que, em muitas e muitas ocasiões, trabalham lado a lado, poderia ter tido como resultado uma tragédia maior.

Em nosso País, os Corpos de Bombeiros de caráter público, excetuando-se algumas poucas cidades principalmente na Região Sul onde existem as corporações voluntárias, são instituições militares e, como tal, regidas por princípios básicos da vida da caserna como a hierarquia e a disciplina, não podendo, também, fazer greves ou qualquer outro tipo de reivindicação fora dos canais competentes e internos. Assim, os bombeiros militares fluminenses cometeram uma série de transgressões (pelas quais irão e devem responder) e que levaram à repressão da forma como todos pudemos constatar.

Contudo, e neste caso também, vamos parar e refletir. A própria rigidez das normas castrenses acaba sendo, de alguma forma, utilizada para se fazer “vista grossa” para graves problemas estruturais como as questões relacionadas a deficiências materiais e salários mais que defasados que, não raro, afetam as organizações de segurança pública brasileiras. Vamos convir que, mesmo com as declarações do governador Cabral sobre um plano de recomposição salarial, é muito difícil ter vencimentos da ordem R$ 950,00 mensais (ou R$ 1.500,00, como informa o mandatário) e esperar que atinja o patamar de R$ 2.000,00 em três anos. Bombeiros, normalmente, são tratados e tidos como heróis pela população. E, não deixam de sê-lo. Mas, não podem viver apenas do rótulo. Como todo e qualquer cidadão, precisam pagar suas contas, ir ao supermercado e proporcionar uma vida digna às suas famílias. Isso, todos temos consciência, não se aplica apenas a essa classe de servidores e não se restringe ao Rio de Janeiro, cidade que sempre foi, é e continuará a ser, além do cartão postal, o cartão de visitas do Brasil.

Assim, entendemos que é obrigação daqueles que, com o nosso voto, escolhemos para dirigir os nossos destinos, dedicarem-se com mais objetividade e menos viés ideológico e retórico para realmente nos tornarmos uma nação séria, respeitada, não apenas por números da economia, mas pela qualidade, pelo naipe de sua gente. Dentre tantas outras coisas lamentáveis que, então, poderão ser evitadas estão fatos como os que tratamos anteriormente e este, quando o desespero (politicamente insuflado ou não) levam militares a passar por cima de princípios basilares de suas corporações.

Revista TECNOLOGIA & DEFESA