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A força (e as atitudes) perante os golpes do destino
Estamos, todos, vivendo uma situação que, a nós, lembra, de alguma forma, os acontecimentos de 11 de setembro de 2001. Na ocasião, os sentimentos eram de incredulidade em relação às imagens transmitidas pela TV das duas torres atacadas desabando com milhares de pessoas perdendo suas vidas de maneira tão estúpida.
O mesmo estarrecimento se manifesta agora com mais uma triste provação imposta ao já por demais sofrido povo haitiano com o devastador terremoto do último dia 12. Há e haverá, por muito tempo ainda, motivos de sobra para se lamentar. É certo que outras tragédias aconteceram – e acontecem – com resultados também catastróficos. Porém, não há como negar que o desastre do Haiti nos toca mais de perto. Afinal, além da proximidade geográfica, da quase identificação latinoamericana, o Brasil está muito envolvido naquele país. Desde 2004, lá lideramos uma Missão das Nações Unidas da qual, dentre outros aspectos não menos importantes, temos o maior contingente militar e também o comando desses meios em operação.
E, não foi por outro propósito que não o de ressaltar - e mesmo explicar para aqueles que teimam em vê-la de modo deturpado e fora da realidade - o fundamental significado dessa participação, que acabamos de editar um Suplemento Especial “Documento – Haiti 5 Anos de MINUSTAH - O papel desempenhado pelo Brasil”. Por mais uma dessas terríveis coincidências o seu lançamento nas bancas deu-se no mesmo dia em que a Natureza manifestou-se tão violentamente naquele miserável país com todas as consequências que nos deixam a todos abalados e entristecidos.
Além de tudo, perdemos, também, irmãos lá. Pessoas de renome como a médica, sanitarista e humanista Zilda Arns, o diplomata Luiz Carlos da Costa (até hoje, 15/01, dado como desaparecido) e membros do Exército Brasileiro, anônimos heróis, integrantes da Força de Paz, alguns nossos conhecidos, inclusive, militares que davam continuidade a um trabalho que vinha sendo fundamental para o resgate da dignidade daquele povo. Também por cruel ironia, após estarem durante os últimos seis meses expostos ao perigo de um eventual confronto armado para a preservação da ordem, tombaram por obra de algo que não é dado ao Homem controlar, quando estavam, justamente, às vésperas do retorno para suas casas, suas famílias. Suas mortes, apesar da dor, da perda irreparável e da consternação os dignifica e à instituição à qual pertenciam. Juntaram-se a outros, caídos no cumprimento do dever, aqui e em terras distantes. Seu supremo sacrifício e o desolador tributo imposto aos seus entes queridos e amigos certamente vai engalanar o tremular de nossa Bandeira Nacional que certamente vai - e deve - continuar hasteada no Haiti.
Portanto, passado o impacto do choque, resta agora enterrarmos nossos mortos e curarmos nossos feridos. Nossos soldados que ainda estão lá – agora praticamente dedicados às operações de socorro - e os que vão começar a chegar, sob a firme liderança do Force Commander, vão mostrar que continuam a cumprir a missão. É uma nova etapa que se inicia e que traz em seu bojo a perda de conquistas significativas que já haviam sido obtidas. A violência e a ação das gangues, infelizmente, devem recrudescer. A tropa, e não temos dúvidas disso, pois acompanhamos a sua preparação e conhecemos seus comandantes, está pronta e vai atuar com a mesma serenidade, firmeza e profissionalismo de suas antecessoras.
As notícias que dão conta do desembarque de marines estadunidenses e de forças militares de outros países no Haiti demonstram que ali há mais significado do que ajuda humanitária simplesmente, tão necessária como sempre foi, aliás. A comunidade internacional pode – e precisa – auxiliar no resgate e atendimento às vítimas e, finalmente, contribuir para a real reconstrução do país. O Haiti não pode, neste desesperador momento, servir de palco para exibições de certas capacidades que não têm obtido êxitos retumbantes – que chamam a atenção da mídia global - em outros lugares.
Por tudo que conhecemos e já escrevemos sobre a questão haitiana temos a plena consciência de que nossos soldados e fuzileiros navais foram os grandes responsáveis – sem esquecer, é claro, da participação ainda que menor de outros contingentes da MINUSTAH – pela imposição e manutenção da ordem naquela parte da Ilha de Hispaniola. E o fizeram com a maior competência. E vão continuar a fazê-lo! |