Niterói na Passex 2012

O trabalho das Divisões da Esquadra

Por Paulo Maia
18/6/2012

 

Foto: Paulo Maia (Tecnologia & Defesa)

Entrevista com o comandante da 1ª Divisão da Esquadra, contra-almirante Marcio Ferreira de Mello, a bordo da fragata Niterói, navio capitânia do Grupo Tarefa brasileiro na recente Passex, com a Marinha da França.

Tecnologia & Defesa: Quais são as principais atribuições das Divisões da Esquadra no âmbito do Comando-em-Chefe da Esquadra?

contra-almirante Marcio Ferreira de Mello: Uma das principais atribuições das Divisões da Esquadra é planejar e executar operações navais de interesse, sendo outra atribuição de muita importância a de subsidiar as Forças que constituem a Esquadra (superfície, submarinos e aeronaval) com informações sobre os seus meios, por exemplo. Estamos embarcados na fragata Niterói que, juntamente com a fragata Geenhalgh e o navio tanque Gastão Motta, integram o Grupo Tarefa brasileiro. Após o regresso da comissão é realizada uma crítica referente às condições dos navios quanto ao aprestamento, aspectos materiais, adestramento e comportamento durante as operações, permitindo que os responsáveis pelos meios navais e aéreos tenham base para realização de avaliação criteriosa dos mesmos. Outra atribuição é alimentar o Comando-em-Chefe da Esquadra com informações que permitam o aperfeiçoamento ou o desenvolvimento de procedimentos operativos. Nesta operação, por exemplo, está sendo utilizada uma aeronave P3M, da Força Aérea Brasileira, em proveito de guerra antissubmarino. Esta participação permite a obtenção de subsídios que serão utilizados para a elaboração de procedimentos para a operação com esta aeronave, que é um fato novo em nossas operações navais, criando uma espécie de gabarito para o seu emprego combinado com a Esquadra.

T&D: Na hipótese de conflito quais seriam os desdobramentos das missões básicas das Divisões da Esquadra?

almirante Ferreira de Mello: A primeira atribuição, já mencionada, que é o planejamento e a execução de operações navais seria basicamente a tarefa de uma Divisão de Esquadra em hipótese de conflito, em operações de interesse do comandante-em-chefe da Esquadra (Comench) que se fizessem necessárias naquele momento. Os comandantes das Divisões de Esquadra (1ª e 2ª) também assumiriam o comando no mar de um Grupamento ou Força Tarefa em operações de guerra naval. Um exemplo dessas operações seria o controle de uma determinada área marítima em atendimento a uma ordem do Comench.

T&D: Qual tem sido a contribuição das Divisões da Esquadra no preparo do comando brasileiro na Força Tarefa Marítima da UNIFIL, no Líbano?

almirante Ferreira de Mello: A UNIFIL foi criada em 1978, e o seu componente naval ativado em 2006, para auxiliar a Marinha do Líbano na prevenção do contrabando, em especial de armamentos. Inicialmente, a Força Tarefa Marítima (FTM) foi liderada pela Alemanha, quando passaram o controle para a EUROMARFOR. Devido a compromissos diplomáticos, em fevereiro de 2011, o comando da FTM passou para o contra-almirante brasileiro Caroli, sendo que a fragata União foi incorporada à Força em novembro do mesmo ano, tendo já sido substituída pela fragata Liberal, que chegou ao Líbano em maio do corrente ano. O contra-almirante Zamith, que assumiu o comando da FTM em fevereiro passado, coincidentemente, comandou a 2ª Divisão da Esquadra, mas não existe a obrigatoriedade de que isso aconteça. A maior contribuição que pode ser atribuída às Divisões da Esquadra pode ser creditada ao preparo do pessoal e dos meios na realização das diversas operações navais. Esse preparo permite, por exemplo, que as fragatas brasileiras integrantes da referida Força sejam utilizadas de forma eficiente em condições reais de emprego como ocorre no Líbano. Por sua vez, os comandantes das Divisões da Esquadra, por exercerem de forma constante o comando do mar, estão plenamente atualizados para exercerem o mesmo em relação a uma força multinacional como a FTM-UNIFIL.

T&D: De que forma as Divisões da Esquadra têm participado da segurança de grandes eventos internacionais, como a Rio + 20?

almirante Ferreira de Mello: A Rio + 20, por exemplo, tem como coordenador por parte da Marinha o comando do 1º Distrito Naval. Para este comando, durante o evento, foram alocados diversos meios da Esquadra (fragata e corveta) meios da Força de Fuzileiros da Esquadra, além outros que se fizerem necessários para atender ao que for determinado pela principal diretiva desta operação. As Divisões de Esquadra participam de forma acessória para garantir que os meios envolvidos possam ser empregados da melhor maneira possível. Esse emprego eficaz dos meios navais considera aspectos de aprestamento, adestramento e doutrinários, sendo que os exercícios no mar resultam em criticas que são utilizadas para a melhoria continua do emprego dos mesmos. Na Passex, por exemplo, além dos navios já citados, estão em operação o submarino Tamoio, aeronaves Super Lynx, Bell Jet Ranger III e P3-AM que, quando estão em operação, estão sendo observados de forma crítica com o objetivo de serem alcançadas melhorias contínuas em determinado setor da guerra naval. Após cada comissão existe uma análise crítica onde se procura explicitar os erros cometidos para que no futuro, acontecimentos iguais não se repitam. Entretanto, novos erros podem acontecer e esta análise crítica sempre presente, um circulo virtuoso na realidade, induz à realização de uma espiral de qualidade, quando os navios e aeronaves retornam às suas Forças de origem, os setores responsáveis utilizam essas críticas em processos contínuos de melhoria. Esses processos, então, permitem o cumprimento de várias missões, entre elas, as de segurança mencionadas.

T&D: Quanto ao adestramento da Esquadra qual é a importância da realização de exercícios da categoria Passex?

almirante Ferreira de Mello: Eu diria que a palavra chave para esta resposta seria interoperabilidade. Como nós temos a oportunidade de operarmos com Marinhas amigas, entre elas a da França, dos Estados Unidos, da África do Sul e as sul-americanas, aproveitamos para observarmos como essas Marinhas realizam procedimentos ou rotinas que são similares aos nossos. Essas observações também recebem uma análise crítica que permite verificar em que pontos determinada rotina ou procedimento que praticamos é mais bem realizado por outra Marinha. Isso permite, então, buscar um ganho operativo para nossa Força. Além disso, sempre existe a possibilidade de se estreitar os laços de amizade com as outras Marinhas, o que é muito importante dentro do conceito de defesa cooperativa. Cabe ressaltar que essas operações conjuntas contribuem para a atuação da Marinha na área diplomática, onde o emprego político dos meios navais é utilizado para a aproximação entre países. Esta Passex, por exemplo, demonstra que o nosso relacionamento com os navios e o pessoal francês embarcado é o melhor possível e que de fato existe grande respeito mútuo entre nossas Marinhas.

Revista TECNOLOGIA & DEFESA