Star One C1, satélite lançado pela Embratel no final de 2007

Star One C1, satélite lançado pela Embratel no final de 2007

 

 

Thales Foca o Brasil

 

Por André M. Mileski

 

Alinhada à formação de uma aliança estratégica que os governos do Brasil e da França têm negociado nos últimos meses, a Thales anunciou no início de abril a intenção de intensificar sua presença industrial e tecnológica no Brasil, tendo em vista a possibilidade de fechamento de novos negócios nos mais variados setores em que atua.

Quando se pensa em Thales, antes chamada Thomson-CSF é difícil não relacionar seu nome à eletrônica militar e radares. O grupo francês, que emprega mais de 68 mil funcionários em todo o mundo e tem receita anual superior a 12 bilhões de euros, tem, no entanto, importante presença em outros setores de defesa e alta tecnologia, como o naval, aeroespacial, e de tráfego aéreo. Nesta última área, aliás, o grupo tem enorme significado para o Brasil, uma vez que no início da década de setenta foi selecionado pelo governo para a montagem do primeiro Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo.

A Thales detém participação de 25% no total de ações da DCNS, principal protagonista do mercado mundial de sistemas navais de defesa. E é justamente a DCNS que apresenta uma das maiores possibilidades de negócio para o grupo francês no Brasil. O estaleiro desenvolve, produz e comercializa o submarino convencional Scórpene, operado na América Latina pelo Chile e que poderá em breve ser adquirido pela Marinha do Brasil dentro de um amplo pacote de transferência de tecnologia visando à futura produção, em território nacional, de um submarino nuclear.

Na área de aviação militar, a Thales é, juntamente com as também francesas Dassault Aviation e SNECMA uma das componentes da joint-venture G.I.E. Rafale International, que tem como objetivo a promoção e exportação global do caça polivalente de quarta geração Rafale. A exemplo do submarino, o caça francês é também forte candidato a ser adquirido pelo País, no caso a Força Aérea Brasileira, operação que, se concretizada, certamente envolverá um extenso programa de transferência de tecnologia e de contrapartidas científicas, tecnológicas e comerciais, o chamado offset.

O grupo ainda é um dos três únicos estrangeiros a ter presença industrial no país relacionada ao programa espacial nacional. Esta presença se dá através da Omnisys Engenharia, da qual o grupo francês possui mais de 50% das ações, participação esta adquirida em dezembro de 2005, numa transação avaliada em cerca de R$ 10 milhões. A Omnisys já produziu e prestou serviços na área de eletrônica espacial, como a produção de transpônderes de coleta de dados para o Sistema Nacional de Coleta de Dados, formado pelos satélites SCD e CBERS, e também sistemas e equipamentos de telecomunicações, trajetografia e telemetria para os centros de lançamento brasileiros, como estações de rastreio, de monitoramento do espectro eletromagnético, e sistema de rastreio ótico, este último em desenvolvimento.

Na área de telecomunicações via satélite, a Thales Alenia Space, empresa controlada pela Thales e pela italiana Alenia, do grupo Finmeccanica produziu os dois satélites de terceira geração da Star One, subsidiária da Embratel, os Star One C1 e C2, lançados no final de 2007 e abril de 2008, respectivamente. Nos bastidores, comenta-se ainda que o grupo seja forte candidato a fornecer ao menos mais um satélite para a companhia brasileira.

Não bastando o histórico de sucesso, a Thales anunciou em abril que deseja participar e apoiar os programas institucionais brasileiros de observação da Agência Espacial Brasileira (AEB) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), se dispondo a realizar transferências de tecnologia direcionadas e progressivas ao Brasil. Um dos negócios no momento disputados pela Thales é uma licitação realizada pelo INPE para o fornecimento de um subsistema da Plataforma Multi-Missão, módulo de serviço padrão a ser usado nas futuras missões espaciais brasileiras.

A Omnisys também tem atividades em outras duas importantes áreas, defesa e tráfego aéreo, servindo como importante plataforma para os novos negócios do grupo Thales no Brasil. A empresa, instalada na cidade de São Caetano do Sul, em São Paulo, participou do desenvolvimento de sistemas de contramedidas e guerra eletrônica para a Marinha do Brasil, como o CME ET/SLQ-2X (sistema de bloqueio, despistagem, e interferência em radares inimigos), e o MAGE Defensor ET/SLR-1 (sistema de reconhecimento tático de emissores radar), que hoje equipam fragatas e corvetas da Marinha.

No setor de controle de tráfego aéreo, a Omnisys é a empresa responsável por todas as atividades de modernização dos radares nacionais, tanto civis como militares, através de um contrato assinado com a sua controladora, a Thales. Nesse contrato, também estão incluídas as atividades de desenvolvimento e fabricação de uma série de equipamentos, tais como amplificadores de baixo ruído, moduladores a estado sólido, balizas de radares secundários, radares meteorológicos, e unidades mecânicas destinadas aos radares modernizados. A competência da Omnisys na área de radares é inclusive reconhecida internacionalmente, dado que recentemente, a empresa foi selecionada pelo Ministério da Defesa da França para um programa de modernização dos radares de rastreio desse país.

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